Umas & Outras... por Clotilde Tavares.

11/10/2006

 

Passado, presente e futuro.

 

Publicada n'A União, em agosto de 2006.

 

Campina Grande é meu passado. Campina Grande é a feira, cheia de sons, ruídos, cheiros e sabores. As matinais do Babilônia e do Capitólio, acompanhando as séries aos domingos, vendo o Zorro, Nyoka e os perigos de Paulina. É a praça Clementino Procópio, primeiro com a fonte luminosa, maravilha multicor que fazia dançar meus olhos de criança, e depois com o passeio inocente das meninas-moças em busca do primeiro namorado. É a Rádio Borborema e os programas de auditório, com Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda e Janete Alves (onde andará ela?). É o Colégio Alfredo Dantas, o medo que tínhamos de Dona Alcide e a ternura que sentíamos pelo professor Loureiro. É também o Estadual da Prata, com rebeldias adolescentes e as amigas Hedenia Airam e Claudia Caetano. É o Campinense Clube com suas tertúlias, ao som da voz de Ronaldo Soares, as matinês do Gresse e as festas no Clube dos Caçadores. No final da noite, com pouca gente dançando, Ogírio me deixava subir ao palco e cantar bossa-nova e músicas de Paulinho Nogueira que só eu sabia. Campina Grande é meu passado, gostoso, feliz, cheio de boas lembranças.

 

João Pessoa é meu presente. O mar de Manaíra, mudando de cor todo dia. O barulho dos carros no Retão, chegando ao meu sexto andar, que me faz feliz porque sei que há uma cidade viva lá fora. O carinho dos amigos, os antigos e os recém-chegados ao meu coração. As listas de discussão na Internet., onde exercito minha cidadania e dou pitaco em tudo o que é de assunto. O lento passeio de carro pela Epitácio ou Trincheiras, aos domingos, descobrindo belezas arquitetônicas patinadas pelo tempo. O cabo Branco e sua falésia, que ajudei a defender um dia desses da sanha dos especuladores. Tambaú e suas tardes de domingo, com feirinha e teatro na rua. A Lagoa com o Cassino, que ainda funciona. Os quase vinte cinemas, e os teatros. Os corredores dos shoppings, onde vago sem destino, olhando vitrines e namorando com bolsas e sapatos. Os ipês amarelos que surgem no meio da paisagem, me enchendo de encantamento, e cujo esplendor só dura uma semana. A leitura dos jornais ao vivo e dos portais pela Internet. A Lua cheia e o planeta Vênus, com quem converso nesta época do ano quando se levanta esplendoroso, único no céu das três e meia da madrugada. E a fala do povo paraibano que ouço quando ando pela rua, doce e saborosa como caldo de cana, que cai no meu coração como água fresca em solo ressequido.

 

Campina Grande é meu passado. João Pessoa é meu presente. Meu futuro é a Parahyba.


Escrito por Clotilde Tavares às 13h32
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17/09/2006

 

Da minha janela, em Tambauzinho

Estou...

... LENDO uma biografia de Lilian Hellman, de Willam Wright. Muuuito legal.

... OUVINDO Jack Johnson na Radio UOL.

... ESCREVENDO muito pouco.

... PREPARANDO projetos e mais projetos para as leis de cultura.

... COZINHANDO minha propria comida uma vez por dia.

... DORMINDO mais, depois que decidi passar uns tempos sem cafeína.

... PEGANDO muito peso na Academia, nessa minha nova vida de atleta.

... SONHANDO com uma luneta, para olhar as estrelas da minha varanda.

... PLANEJANDO uma viagem antes do fim do mês.

... COMPRANDO barato e vendendo caro.


Escrito por Clotilde Tavares às 21h46
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DOMINGO ALEGRE

 

*** Um domingo diferente, hoje. Em vez de descambar para as bandas da praia, como faço sempre, almocei na cidade, com os jornalistas Petrônio Souto e Carlos Aranha. Entre os papos, rolou de tudo: política, música, filmes e a inevitável vida alheia, talvez o melhor assunto da tarde.

 

*** Depois, dei uma volta no Tambiá Shopping onde aproveitei para me consultar numa simpática cartomante que encontrei em feira “mística” que acontece naquele espaço. Por uma quantia módica, a moça me vaticinou muito dinheiro, uma viagem e um novo amor, tudo isso antes do fim do ano. Valeu cada centavo.

 

*** Depois, fui à sessão do Planetário, no Espaço Cultural. Pelo preço de R$ 4,00 passei meia hora numa viagem pelo sistema solar. A coisa toda é meio infantil mas eu fiquei encantada com a visão do “céu” estrelado. No final, senti que algumas coisas da trilha sonora não eram mostradas em imagem. Os técnicos responsáveis me informaram que a máquina está com defeito; e que, de vários programas diferentes que havia antes, agora só funciona este, do sistema solar. E que tinham esperanças de que uma reforma e atualização, há muito tempo prometida, iria acontecer. Vamos esperar.

 

*** A leitura dos jornais dominicais não me trouxe nada de interessante, a não ser uma entrevista com o empresário Roberto Santiago. Malgrado tudo que se diz dele - que violentou o mangue para construir o shopping, e outras coisas - eu tenho uma indisfarçável admiração pelas pessoas que fazem sucesso e que assumem publicamente e sem hipocrisia que gostam de dinheiro, que são loucos por dinheiro. Engraçado: eu não tenho inveja nem raiva de gente rica.

 

*** Bem, e de novo saí com artigo publicado no Augusto, suplemento cutural do Jornal da Paraíba, que você pode ler abaixo, sobre o cinqüentenário da morte de Bertholt Brecht.

 

*** Ainda do centro da cidade, descendo a Santo Elias, me surpreendi com a casa onde morou Anayde Beiriz em obras, com um monte de areia e uma tábua obstruindo a porta. Mas a arquiteta Cristina Evelise, do IPHAEP, a quem consultei, disse que é uma reforma devidamente aprovada pelo órgão.

 

*** Nesta sexta-feira, dia 22/09, a Accessus E & C, dos empresários Alair e Salustiano Fagundes, estará em São Paulo, na Câmara Brasileira do Livro, fazendo o lançamento da Bienal Nacional do Livro de Natal, edição 2007. Fico feliz de participar novamente com eles deste empreendimento, como faço desde 2002.



Escrito por Clotilde Tavares às 20h56
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A atualidade de Bertholt Brecht, por Clotilde Tavares

Publicado no Augusto, suplemento cultural do Jornal da Paraíba - João Pessoa/PB

Bertolt Brecht (1898-1956) é a maior figura do teatro alemão do século XX. Dramaturgo, poeta e diretor, tornou-se conhecido no mundo inteiro pela criação de uma estética teatral que recebeu o nome de “teatro épico”, oposta ao “teatro dramático”. Preocupado com a diminuição da percepção crítica do espectador, que o levava a envolver-se emocionalmente com as obras que via, diminuindo seu poder de discernimento, Brecht propõe o teatro épico, baseado no que ele chamou de “distanciamento”, onde se torna claro o artifício da representação cênica. 

E o que significa isso? Significa que, durante todo o tempo de apresentação da obra teatral, o espectador é impedido intencionalmente de emocionar-se com as situações, sendo levado sempre a questioná-las, a problematizá-las, a analisá-las criticamente. Para isso, a ação – que no teatro brechtiano é mais narração do que ação propriamente dita - é várias vezes interrompida através de personagens especiais que comentam com o público os acontecimentos e levantam as possibilidades de ação dos personagens. Como exemplo bem claro temos o texto Aquele que diz sim e aquele que diz não onde, como o próprio título indica, a representação mostra duas versões da mesma história, determinadas ambas pelo “sim” ou pelo “não” de um dos personagens. 

O objetivo do teatro de Brecht é prioritariamente a formação de um espectador crítico, que tenha no teatro um meio de auxiliar-lhe a tomar decisões que se refletirão politicamente na sua vida prática. É isso que o torna atual, é isso que o torna eterno, permanente, um clássico, em suma. 

Para obter esse efeito torna-se transparente, no seu teatro, a visão dos bastidores da representação cênica. Os contra-regras entram em cena e entregam objetos aos atores, as transformações de cenário são feitas à vista da platéia e os valores ideológicos do texto são claramente definidos. Usa-se todo tipo de informação “não-teatral”, como cartazes, por exemplo. No teatro brechtiano, declaradamente não aristotélico, a catarse é excluída. 

O teatro de Brecht tem uma importância didática fora do comum na formação de cidadãos conscientes e críticos e isso tem sido usado ao longo dos cerca de setenta anos que decorreram desde que ele começou a produzir suas peças. No Brasil, o grupo Companhia do Latão, sediado em São Paulo, é uma referência na representação da obra brechtiana entre nós. 

Mas não é só isso. Bertolt Brecht ainda recuperou para o teatro o uso da música como integrante orgânico da ação cênica, usando-a em todas as suas peças. Com seu parceiro Kurt Weil criou obras imortais, como a conhecidíssima Mack the Knife. Algo que sempre se esquece de dizer sobre Brecht é que ele foi um poeta inspirado e dono de um texto pleno de beleza. Seu papel como diretor e criador de uma obra politicamente engajada muitas vezes nubla a sua grande capacidade e força poética. 

Inicialmente na Alemanha, e depois em vários países, incluindo os Estados Unidos, para onde emigrou fugindo do tacão nazista, Brecht criou obras imortais como A Ópera dos Três Vinténs, Aquele que diz sim e aquele que diz não, Os Fuzis da Senhora Carrar, Mãe Coragem e Seus Filhos, A Vida de Galileu, O Senhor Puntilla e seu Criado Matti, O Círculo de Giz Caucasiano, entre tantas outras. 

Em 1949 Brecht voltou para Berlim Ocidental, onde ele e sua segunda mulher, a atriz Helene Weigel, fundaram uma companhia teatral, o Berliner Ensemble que o tornou mundialmente reconhecido e aclamado. Brecht morreu em 14 de agosto de 1956.


Escrito por Clotilde Tavares às 20h24
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12/09/2006

Estranhas iguarias

(Em resposta a uma pergunta de Karl Leite)

Publicado n'A União, em 13 de setembro de 2006

 

Uma das mais doces recordações da minha infância – e quando uso a palavra doce peço que me entendam literalmente – era quando minha tia Adiza, que morava conosco, fazia uma de suas viagens ao interior da qual sempre trazia, como raro e precioso troféu, uma ou duas latas de chouriço. Esta estranha iguaria, que é na verdade um doce feito com sangue de porco, açúcar, farinha e especiarias era considerado artigo de luxo entre nós, pela dificuldade em obtê-lo, e vinha acondicionado em latas de leite em pó, que ficavam na mais alta prateleira do armário. Nada, porém, era suficientemente inacessível para a nossa gulodice e, armados de uma colher de sopa, abríamos as latas e mergulhávamos a colher naquela substância negra e macia, ornada de castanhas, e roubávamos uma ou duas colheradas. Era o bastante, pois a mistura era forte e podia nos colocar com os intestinos desregulados se comêssemos muito, denunciando o atentado ao doce patrimônio de Mamãe e Titia.

 

Há um doce muito parecido com esse no universo culinário nordestino: é um doce de gergelim, chamado “espécie”, que conheci um dia desses pelas mãos do escritor Aldo Lopes que, indo a Princesa Isabel, sua terra, trouxe para mim a preciosidade, que tem a mesma aparência do chouriço mas difere em relação à base, ao ingrediente principal, que no chouriço, é o sangue de porco e, na “espécie”, é o gergelim. Além disso, o chouriço é mais compacto, mais consistente e a “espécie” mais cremosa, e de sabor mais suave.

 

Cascudo define um e outro. Segundo o Mestre, chouriço é o mesmo que “morcela”, nome comum em Portugal, e dá a receita, constante no seu Dicionário do Folclore Brasileiro: uma tigela de farinha de mandioca peneirada e outra tigela contendo os seguintes ingredientes: erva doce, pimenta do reino, gengibre, cravo, castanha de caju assada bem seca, gergelim, tudo pilado junto e passado na peneira. Faz-se o mel de rapadura, esfria-se e mistura-se em fogo brando com o sangue de porco, mexendo para não encaroçar. Depois de fervido, coa-se, junta-se a farinha e os temperos, leva-se novamente ao fogo e vai-se despejando lentamente a banha derretida de porco, em fogo alto, mexendo-se vigorosamente até despregar do tacho, coisa que deve acontecer depois de umas duas horas. Come-se frio, com farinha fina.

 

E as quantidades, perguntaria você, meu caro e exatíssimo leitor. De que tamanho é essa tigela? Quantas rapaduras se usa para fazer o mel? Qual a quantidade de sangue de porco, e como se deve obtê-lo? E eu sei? Quem sou eu para saber de coisas tão misteriosas? Receitas como essas, feitas “no olho” durante tantos séculos, passadas de mãe para filha, desde os tempos em que se amarrava cachorro com lingüiça, nunca trazem as quantidades e para realizá-las você vai usando o bom-senso, repetindo o preparo e testando as quantidades até encontrar a medida certa.

 

Então, para a sua satisfação, passo-lhe também a receita do doce de gergelim, a famosa “espécie”, colhida no site da Embrapa, dessa vez com as quantidades exatas e perfeitamente passiveis de reprodução.

 

Coloca-se um copo americano (chama-se “copo americano” aquele comum, de bar) de gergelim em uma panela e leva-se ao fogo para torrar. Quando estiver estalando retira-se do fogo e mexe-se até esfriar um pouco quando se deve misturar uma colher de sopa de cravo da Índia torrado e meio copo americano de castanha de caju assada e sem pele. Passa-se tudo no moinho ou no liquidificador, coloca-se numa panela, junta-se uma colher de sopa de manteiga e quatro copos americanos de mel de rapadura. Leva-se ao fogo, mexendo sempre até aparecer o fundo da panela. Enfeita-se com castanhas. Quem ensina a receita, acrescenta que o gergelim pode ser moído ou liquidificado. Para não “embolar”, deve-se colocar no liquidificador, uma porção de gergelim e igual quantidade de farinha de mandioca, pois a farinha “enxuga” o gergelim.

 

No mais, é ter muito cuidado com essas preciosidades culinárias pois são hipercalóricas, desequilibrando sem remédio qualquer dieta de emagrecimento. E bom apetite.


Escrito por Clotilde Tavares às 04h27
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21/06/2006

O rapaz, a moça e o sistema

Artigo de Clotilde Tavares, publicado na Tribuna do Norte.

Hoje quero lhe apresentar três entidades que fazem parte da minha vida e da sua, meu caro leitor, três entidades importantes e, digo mesmo, indispensáveis à nossa vida, à nossa saúde, ao nosso bem-estar. Apresentar é modo de dizer porque você, provavelmente, já entrou em contato diversas vezes com elas, e desses encontros deve ter saído sempre uma pessoa não direi melhor, mas muito mais experiente. São elas o rapaz, a moça e o Sistema.

Quem é o rapaz? O rapaz está em todo lugar. Essa onipresente criatura é aquele que, por exemplo, cuida do som ou do projetor sempre que vamos falar em algum lugar, dar uma aula ou ministrar uma palestra. Chama o rapaz pra ligar o som. O rapaz que liga o projetor ainda não chegou. Vamos esperar o rapaz. O rapaz esqueceu a chave e voltou em casa lá na Zona Norte para apanhar. O rapaz foi levar a mãe no hospital e só chega daqui a pouco. O rapaz. O rapaz. O rapaz parece tão necessário quanto fugidio em tudo o que fazemos na nossa vida. Compramos um armário novo e lá ficamos de castigo em casa por três dias esperando o rapaz que vem fazer a montagem. Solicitamos um canal de TV paga, e lá vem de novo o rapaz passar a fiação e conferir vida ao nosso televisor. Colocamos o lixo na porta do apartamento e temos que esperar o rapaz que passa todo dia às dez para apanhar os sacos azuis. E vou confessar uma coisa, meu caro leitor: no meu quarto de dormir, este recinto sagrado e inviolável que fica no apartamento que aluguei há apenas quinze dias, o rapaz já entrou quatro vezes!

Bem ou mal, de maneira rápida ou demorosa – no mais das vezes demorosa – o rapaz sempre está fazendo algo para nós. Já a moça, não. A moça parece ter prazer em não fazer. A moça geralmente está atrás de um balcão, de um guichê, tendo à frente um terminal de computador do qual ela não tira os olhos. Não adianta ser simpática, elogiar-lhe o brinco ou a maquilagem, dizer gracinhas, e muito menos dizer que está com os pés doendo depois de horas na fila. A moça é simplesmente incomovível, é uma criatura de pedra, fria e atenta apenas àquilo que ela chama de "os procedimentos", para os quais foi treinada e levada a abandonar qualquer toque de humanidade ou de ligação com o ser humano seu semelhante que está ali, à sua frente. A moça só vê o manual de procedimento e a tela do computador, e fim de papo. E é a moça quem tem nas mãos o nosso destino. É ela quem carimba o formulário, autoriza o pedido, emite o bilhete de passagem, imprime a guia, libera a consulta ou cirurgia, entrega a nota fiscal, troca o aparelho ou o artigo que veio com defeito, registra sua compra. É a moça, sempre a moça, que está do outro lado do aparelho telefônico quando você quer algum esclarecimento, deseja fazer uma compra ou solicitar um serviço.

A propósito, há agora uma nova versão da moça, uma moça virtual, que entende o que você diz ao telefone, desde que seja dentro do assunto. Se tossir, ou espirrar, ela diz de forma educada: "Não entendi". E se você responder: "Foi somente um espirro, minha filha", a criatura repete, sem emoção: "Não entendi". Se a outra moça, a real, é ensinada a não pensar, a seguir apenas o procedimento, essa moça virtual é pior: é criada já, do berço – ou da bancada do laboratório - sem capacidade de entender qualquer coisa que não seja o tema ou o serviço ao qual se dedica, qual escrava eletrônica, sem nenhum consideração pelos humanos que somos todos, sujeitos a tossir enquanto estamos falando.

E aqui entra em ação a terceira personagem, a mais poderosa, a terceira pessoa da santíssima trindade da esquizofrenia e loucura desses nossos tempos modernos: o sistema. O que é o sistema? Ninguém sabe. Para mim, é o Sistema, assim, com "S" maiúsculo, uma entidade inscrita no imaginário da sociedade tecnológica quase com o poder de divindade. Nenhum ato, por minúsculo que seja, pode ser efetivado se o Sistema não aceitar. Matricular um filho numa escola, fazer um pagamento, alugar um simples DVD na locadora, licenciar o carro, pagar uma conta, ter o pagamento dessa conta reconhecida... Tudo depende do Sistema.

Ah, meu caro leitor! O Sistema é poderoso e é cruel, além de obedecer a uma lógica que escapa ao entendimento da minha mente humana, simples e sem sofisticação. É o Sistema que me pune não sei por qual pecado cometido quando, depois de passar horas no supermercado fazendo as compras, e enfrentar uma fila, chegando ao caixa, pés estropiados, dor de cabeça, fome, vontade de ir ao banheiro, o que acontece? O Sistema não aceita o meu cartão, cartão esse que foi aceito uma hora antes pelo mesmo Sistema no posto de gasolina onde fui abastecer o carro. Sem outro meio de pagar a compra, o que me resta? Abandonar o carrinho com a carne, o feijão e o arroz, e descarregar sobre a moça do caixa e o rapaz que empacota a minha frustração, tristeza e cansaço. Por causa deles, dessa trindade monstruosa, corporificada à minha frente, Sistema-Moça-Rapaz, insensíveis às minhas queixas, é que um dia eu ainda vou fazer como Zabé da Loca e morar no mato. Quem viver, verá.


Escrito por Clotilde Tavares às 13h59
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28/04/2006

A Pedra do Ingá

Artigo de Clotilde Tavares, publicado n'A União, 26 de abril de 2006 (João Pessoa - PB)

 

Se a Pedra do Ingá estivesse localizada na Europa ou nos Estados Unidos, eu tenho certeza de que já na rodovia principal, equivalente à nossa BR-230, perto da entrada do município, haveria grandes painéis iluminados e coloridos, com reprodução fotográfica da pedra e alguns dizeres que atraíssem o turista. Ao chegar lá, o visitante encontraria todo o sítio histórico e arqueológico cercado, ou isolado, para disciplinar e orientar a entrada, e haveria também uma estrutura adequada para recebê-lo, com local para estacionamento, bar, restaurante, banheiros, e isso funcionaria inclusive nos domingos e feriados.

Os funcionários estariam vestidos adequadamente e seriam treinados para receber e tratar bem o turista. Haveria material informativo para distribuição ou venda, além de souvenirs. As visitas obedeceriam a trajetos determinados por especialistas, para que se pudesse aprender mais sobre a pedra, sua história e seu significado, e haveria passarelas construídas especialmente para evitar que os freqüentadores pisassem nas pedras, sobre as inscrições. As pessoas também não poderiam tocar ou riscar as pedras, nem inscrever seus nomes nelas com instrumentos pontiagudos, nem recolher pedaços delas para levar de lembrança, e muito menos aplicar sobre as inscrições substâncias para realçar-lhes a profundidade com o objetivo de melhor fotografá-las.

Seria interditado o uso do sítio para piqueniques, banhos de rio e outras atividades, e muito menos seria permitido fazer pequenas fogueiras para aquecer alimentos, e deixar atrás de si lixo como garrafas plásticas, guardanapos e copos de papel. Também seriam construídas em local próximo lavanderias públicas para as mulheres pobres da vizinhança, que não precisariam assim usar o rio que banha o sítio arqueológico para lavar roupas, usando sabão e alvejantes que, misturados à água, poderiam danificar as pedras.

Se a Pedra do Ingá fosse na Europa ou nos Estados Unidos, as autoridades seriam sensíveis à importância do monumento e, acima de diferenças municipais, estaduais, federais, políticas ou partidárias, saberiam que é mais importante zelar pelo patrimônio legado pelos ancestrais do que preocupar-se em expor seus condescendentes egos ao brilho duvidoso das propagandas oficiais, que propagam o que não existe e são pagas com o dinheiro do contribuinte.

Mas a Pedra do Ingá, onde estive no dia 14 de abril passado, não fica na Europa nem nos Estados Unidos. A Pedra do Ingá, coitada, fica na Paraíba.


Escrito por Clotilde Tavares às 09h45
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23/04/2006

Shakespeare, sempre e eternamente

Publicado na TRIBUNA DO NORTE, em 23 de abril de 2006. Natal, RN.

Todo ano nesta mesma época estou aqui falando sobre William Shakespeare, o imortal poeta e dramaturgo inglês, o homem cuja obra atravessou incólume, poderosa e sempre renovada a barreira dos séculos e ainda encanta multidões. Neste domingo, 23 de abril, decorrem 442 anos do seu nascimento, que ocorreu no ano de 1564 na cidade de Stratford-on-Avon, na Inglaterra. E daqui dessas lonjuras eu, fã inconteste, tiete despudoradamente shakespeareana até a última fibra do meu coração poético e teatral, saúdo este homem e digo que sua leitura continua sendo fonte de um prazer estético e artístico indescritível, que deveria ser experimentado por todos.

Por que ler Shakespeare hoje? Ora, minha gente! Porque Shakespeare - como todo clássico - é atual, é universal e é genial. Mas é velho, diria você. É antigo, é antiquado, trata de reis e rainhas, coisas obsoletas, que não existem mais. Mas eu lhe peço dois minutos de atenção. Imagine uma história onde fantasmas aparecem e revelam crimes do passado, e um jovem se vê na obrigação de vingar a morte do pai, sendo traído e enganado pelos amigos e pelo rei, usurpador do trono. Na ânsia de vingar-se, despreza a namorada e ela enlouquece e morre. No final, tudo dá errado e morrem todos! Parece quadrinhos, Sandman, Mangá, Kill Bill ou Batman. Parece a novela das oito ou o último épico que está passando no cinema próximo. Mas não é nada disso: é “Hamlet”. O bom é que esta peça, escrita em 1501, pode ser vista como uma história de assassinato e vingança, povoada de fantasmas, suicidas e paisagens de cemitérios; mas pode também ser entendida como uma das mais espetaculares viagens de descoberta de um ser humano à procura da sua própria alma.

E não venha me dizer que Shakespeare é chato, que a linguagem é incompreensível e difícil de entender. Eu defendo a idéia de que tudo que há em “Hamlet” pode ser compreendido por qualquer adolescente de quinze anos. É somente uma questão de se entregar, de mergulhar na lógica interna daquela linguagem aparentemente difícil. Depois de dez minutos, você está entendendo tudo. Aí alguém pergunta (como já me perguntaram): “E porque então ele não escreveu numa linguagem mais simples?” Ora, meu caro leitor! Você está propondo ao pavão, com aquele leque de mil cores que se desdobra com lentidão e maravilha, que se torne preto e branco? O que eu sei é que os jovens adoram, quando entram na viagem.

E o que é isso: “entrar na viagem”? É se despir dos preconceitos e ultrapassar as barreiras que nos separam dessa obra tão genial. A principal barreira, e talvez a mais amedrontadora, é mesmo a da linguagem. William Shakespeare se expressa com riqueza de detalhes, de metáforas e de imagens poéticas de uma forma que revolucionou a língua inglesa da época elisabetana e que ainda hoje dificulta um pouco a sua leitura até mesmo no idioma original. Mas é só relaxar, deixar-se levar pela magia das palavras e começar a entender que “o úmido astro que ergue o império de Netuno” é a Lua, e que “a carga de Hércules” é o mundo, o globo terrestre. Mal comparando, as músicas do Planet Hemp e do “rap” em geral, por exemplo, também são incompreensíveis para quem não “entra na viagem” da linguagem, das expressões, dos assuntos abordados.

Quanto aos temas, são os mesmos e eternos temas que o ser humano sempre gostou de discutir: ambição (“Macbeth”), vingança (“Hamlet”), inveja, ciúme e desconfiança (“Otelo”), amor impossível (“Romeu e Julieta”), enganos do amor (“Sonho de Uma Noite de Verão”), velhice, decrepitude e ingratidão dos filhos (“Rei Lear”), orgulho e prepotência (“Coriolano”), a luta pelo poder (“Ricardo III”, “Júlio César”), magia e encantamento (“A Tempestade”), como agarrar um homem - ou uma mulher (“A Megera Domada”, “Trabalhos de Amor Perdidos”), o exercício da justiça (“O Mercador de Veneza”)... e por aí vai.

A experiência prática que eu tenho é que, quando se apresenta Shakespeare aos jovens, no início há uma estranheza por causa da linguagem; mas logo em seguida, quando se “entra na viagem”, a paixão é súbita, avassaladora e permanente, a mesma paixão que se abateu sobre mim quando, curiosa e despida de idéias preconcebidas, li o “Hamlet” pela primeira aos 16 anos de idade. Não compreendi muita coisa, e hoje, depois de décadas lendo de novo e novamente essa obra, considero que ela ainda me reserva muitos espantos e surpresas.

Então, comemore comigo esta data, e saiba que, em qualquer lugar do mundo, quando no ar vibrarem as suas palavras imortais, lidas em qualquer idioma, o bardo de Stratford estará conosco, conectando-nos com a alma poética da Humanidade, e fazendo correr um oceano de Beleza, Poesia e Prazer para dentro do nosso coração.


Escrito por Clotilde Tavares às 09h28
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23/02/2006

Minha gente, 

 

Lá estou eu de novo aqui no desempenho desta suspeita e discutível tarefa de assessora de imprensa de mim mesma, com algumas novidades.

 

*** A partir de amanhã, sexta, 24/02, estarei no Encontro da Nova Consciência em Campina Grande, onde farei uma palestra na segunda-feira às 19h30 no Teatro Municipal. O tema da palestra é "A jornada do herói n'O Pavão Misterioso", onde eu vou falar sobre esse mito e compará-lo com a trajetória do protagonista do folheto de cordel "O PavãoMisterioso", um dos mais famosos e conhecidos do romanceiro popular nordestino. De quebra, e para ilustrar, vou recitar o folheto.

 

*** Ainda no Encontro farei parte de uma mesa sobre Internet, mas não sei ainda o dia nem a hora. Fora isso, você me encontra lá no Hotel Village ou nas alamedas da "Rainha da Borborema", atendendo sempre pelo fone 84 9984 3310. Meus livros "A Agulha do Desejo", "A Magia do Cotidiano" e "A Botija" vão estar à venda nas livrarias do Encontro.

 

*** Por falar em "A Botija", a edição que a AS Livros fez em 2003 está praticamente esgotada, devendo sair uma nova agora ainda no início do ano pela Editora 34. Desta vez, o livro será em tamanho maior, e ilustrado, graças ao maravilhoso Alberto Martins, da 34, que mudou completamente a aparência do livro. Estão previstos lançamentos em João Pessoa, Campina Grande, Natal e Recife. Em breve divulgarei datas. 

 

*** O site Cordel On Line (www.cordelonline.com.br) andou meio borocochô nesses dias; após o Carnaval, está prevista a sua reativação em grande estilo, com novo visual. E estou planejando um evento sobre cordel, em João Pessoa, antes do final do mês de março. Aguardem convite.

 

*** A Bienal Nacional do Livro da Paraíba já está definida, e irá acontecer em João Pessoa, no Espaço Cultural, de 20 a 28 de maio próximo. O evento será lançado comercialmente no próximo dia 7 de março, às 19 h, na Fundação Casa de José Américo, com o sorteiro dos stands para os expositores paraibanos (livrarias, editoras, gráficas, instituições de ensino e outras). Em seguida, em 11 de março, a Bienal da Paraíba será lançada nacionalmente, durante a Bienal do Livro de São Paulo. Visite www.bienaldaparaiba.com.br onde há o formulário de adesão e a planta da feira, com tamanho de stand, etc.

 

*** Estou concluindo nova peça de teatro - um musical! - sobre um tema da história de Campina Grande. Aguardem a novidade!

 

*** Também está em fase final de preparação meu novo livro "Parahyba Pátria Minha" que reúne um ano de crônicas publicadas semanalmente às quartas-feiras no jornal "A União". Estou na fase de buscar apoios e parcerias.

 

*** Em 2007 pretendo ter terminado o primeiro volume das minhas memórias, que abarcam os primeiros vinte anos da minha vida passados em Campina Grande. Pensei em intitulá-lo "Antes que me esqueça", mas descobri que há um monte de livros com esse título. Enfim, penso que quando ele estiver pronto, o título surgirá. Preciso muito é de me lembrar das coisas, e por isso tenho andado por Campina, máquina fotográfica em punho, clicando todos os lugares por onde andei na minha juventude. Graças a Deus a cidade era pequena e os lugares não são muitos, porque isso economiza minhas idosas - mas ainda belas - pernas. Nas calçadas da Miguel Couto, enquanto fotografava o local da casa que morei, no número 229, no último final de semana, tive uma crise de saudade e parei com as fotos, os olhos úmidos, troncha de tristeza. É a vida.

 

*** Livros que estou lendo e curtindo, todos ao mesmo tempo: "A Linguagem de Shakespeare" de Frank Kermode, com tradução da maravilhosa Bárbara Heliodora (Record, 2006); "O Design do Livro", de Richard Hendel (Ateliê Editorial, 2003); e "Inventário do Tempo: Memórias", de Deusdedit Leitão (Emporio dos Livros, 2000), que comprei no sebo de Ronaldo, em Campina. Comprei também, mas ainda nem peguei, outros livros entre os quais "Padre Azevedo, sua vida, seus inventos", de Eduardo Martins. Esqueci também de falar nas "Memórias de campina Grande", de Ronaldo Dinoá, em dois volumes, que andei lendo novamente para escrever a peça sobre a qual falei antes.

 

Bem, aí é a hora em que você me pergunta: "Clotilde, e o Carnaval?" E eu respondo: "Carnaval? O que é isso?"


Escrito por Clotilde Tavares às 10h29
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15/01/2006

Bolsa de mulher

Publicado na Tribuna do Norte, Natal-RN, em 15 de janeiro de 2006.

 

O tema já tem gerado artigos e crônicas incontáveis, mas sempre haverá algo a dizer sobre ele. Quem nunca ficou curioso sobre o que carregam as mulheres em suas bolsas? Quem nunca desejou dar uma espiadinha no que há ali dentro? Quando a mãe diz ao menino “Pegue o dinheiro ali na minha bolsa!”, o moleque fica horas mexendo ali, fascinado por aquele receptáculo cheio de mistérios, freudianamente associado ao órgão sexual feminino.

 

De fascínio em fascínio, com ou sem conotações eróticas, a bolsa feminina é muito mais do que uma forma de carregar confortavelmente os inúmeros objetos necessários à sobrevivência da mulher no mundo-fora-de-casa. Mais do que o conteúdo, o continente assume também valores significantes, quando se associa a modelos, cores, tamanhos e, principalmente, griffes.

 

Sou doida por bolsas. Se fosse uma mulher rica, cheia da grana, estou certa de que teria mais bolsas do que sapatos, roupas ou jóias. A primeira bolsa da minha vida me chegou aos cinco anos de idade. Era uma bolsa velha da minha avó, de couro cor-de-vinho e forrada de camurça bege, fora de uso. Deram-me a bolsa para brincar e ela virou minha arca do tesouro, meu relicário secreto, onde eu guardava tudo que achava de precioso e mágico. Não me lembro desses objetos, mas lembro-me da bolsa e consigo rememorar fielmente sua textura macia, o contato da camurça do forro, e o suave deslizar do fecho interno. Depois, aos dez anos, tive uma bolsinha branca, minúscula, cilíndrica, do tamanho de uma caneca de café, que me acompanhava às matinês do cine Babilônia em Campina Grande, acompanhada das luvas curtas de nylon transparente que as meninas usavam nessa época.

 

Aí minha memória dá um salto grande e lembro das bolsas que usava na época da faculdade, bolsas de tecido, bordadas à mão, que eu mesma fazia, e das imensas bolsas de couro da era hippie, que usávamos ao ombro e que iam até o joelho. Em 1979, comprei no Rio, num butique da N.S.de Copacabana uma bolsa feita com contas de madeira que me acompanhou durante anos, testemunha de aventuras e noitadas, e cujos restos eu ainda guardo com carinho no baú das coisas velhas.

 

Carrego nas minhas atuais bolsas pouca coisa. A carteira com dinheiro, cartões e documentos, que nunca encho de papéis; o batom no seu estojo com espelho; uma minúscula escova de cabelo; o celular; a câmera fotográfica; caneta e caderneta; um leque; e o porta-bolsa, que é um ganchinho usado para pendurar a bolsa na mesa do restaurante, deixando-a segura e à mão. Gosto de bolsas grandes, que caibam também livros e um casaquinho para agüentar o frio ar condicionado dos cinemas. Tenho também um sistema para evitar que a bolsa se encha de tranqueira e de porcaria; sempre, sempre, sempre, ao chegar em casa, esvazio o seu conteúdo numa cesta que tenho especificamente para isso e a penduro no cabide da parede, junto com as outras. No outro dia, quando vou sair, só coloco dentro da bolsa – a mesma, ou outra diferente – as coisas listadas acima.

 

Tenho poucas bolsas. Uma preta e outra vinho, da Carmen Stephens, compradas em liquidação; uma bege, sem griffe, grande e maravilhosa, de alças graduáveis e couro macio e delicioso de tocar; uma bordada, dessas que andam usando agora; e algumas bolsinhas pequenas, que uso pouco para sair à noite. Minha coleção é modestíssima, porque uma bolsa Arezzo, por exemplo, custa entre trezentos e quinhentos reais, o que está completamente fora do meu orçamento, o que não impede que eu as namore todo dia na vitrine da loja. Há um modelo grande, bordado, de um couro da cor-de-ouro-velho, que custa quase quinhentos reais, com o qual eu venho trocando olhares, enquanto outra pessoa não a leva para casa.

 

Também tenho meus fetiches, meus sonhos de consumo, como todo mundo. Perto de casa há uma loja onde existe um modelo da Maison Saad, estampado com uma paisagem de Paris, pelo qual suspiro profundamente. O preço de mil e seiscentos reais coloca esta bolsa quase no patamar do impossível; e, navegando na Internet, delicio-me com os modelos de griffes internacionais como a Birkin Bag de Hermés, que custa algo em torno de seis mil dólares, a Baguette da Fendi, a bolsa com corrente dourada de Chanel...

 

E se você hoje está de mau humor e acha tudo isso um absurdo, ostentação de gente rica e ociosa, e que eu não deveria estar falando nisso num país onde o salário mínimo é de pouco mais de cem dólares eu lhe digo: sonhar é grátis, e se você sonha com Brad Pitt ou Angelina Jolie eu, que também sonho com o inacessível Brad Pitt, sonho com a Birkin Bag, no modelo cor-de-rosa, impróprio para a minha idade mas, afinal, no sonho eu posso tudo, não é mesmo? Sonhemos, então.


Escrito por Clotilde Tavares às 17h37
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11/01/2006

Crítica versus opinião

Publicada n'A União, João Pessoa, em 11 de janeiro de 2005

 

O célebre escritor J.R.R. Tolkien faz o seguinte comentário no prefácio do primeiro volume do seu livro “O Senhor dos Anéis”: “Algumas pessoas que leram o livro acharam-no enfadonho, absurdo ou desprezível; e eu não tenho razões para reclamar, uma vez que tenho opiniões similares a respeito do trabalho dessas pessoas, ou dos tipos de obras que elas evidentemente preferem.”

 

É isso aí, caro leitor. Tem gosto para tudo e não existe nada no mundo que não possa ser apreciado por alguém. Além de ter o direito de gostar, o cidadão tem o direito inalienável de expressar sua opinião, sendo esse direito um dos pilares da democracia.

 

Quando eu expresso meu gosto pessoal para você através desta coluna, tenho que deixar bem claro que é o meu gosto pessoal. Se eu quiser comentar uma obra de arte qualquer de um ponto de vista que seja mais do que uma simples opinião, primeiro tenho que conhecer a linguagem daquela arte, para que possa analisar seus elementos e verificar se a obra – música, poema, livro, quadro ou peça de teatro – realizou seus objetivos, dentro da forma que o artista escolheu para se expressar. Aí, estarei exercendo uma função crítica que é importantíssima para que artistas e público se aprimorem, aqueles elaborando melhor suas criações e este aprendendo a compreender melhor a obra de arte, podendo assim desfrutá-la com mais prazer. É claro que o crítico tem seu gosto pessoal e isso se traduz naquilo que ele escreve. Mas sua opinião sempre deve ser baseada no conhecimento da linguagem da arte em questão e na evolução histórica dessa arte. Nunca no simples “eu acho”.

 

Mas como gosto não se discute, e tem gosto para tudo, lembro aqui da história daquela mulher que era feia, muito feia. Mas não era qualquer feia: essa era feia mesmo, daquelas que são feias de doer. Pele áspera como a de uma laranja murcha, cabelos secos e sem cor, olhos sempre lacrimejantes, orelhas grandes e de abano, dentes amarelos e irregulares, boca torta, nariz adunco. De corpo então nem se fala. O peito era chato, os braços compridos, as pernas finas e curtas, quadris estreitos e para completar mancava um pouco pois tinha uma perna maior do que a outra.

 

Pois bem: esse estrupício, mesmo com toda essa carga de feiúra, achou um homem que se apaixonou perdidamente por ela. E quando as pessoas perguntaram ao herói o que ele tinha visto naquela criatura horrorosa, o apaixonado galã, provando que tem gosto para tudo, respondeu: “Gosto de tudo mas o que mais me agradou foi aquele jeitinho dela andar...”


Escrito por Clotilde Tavares às 08h09
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02/01/2006

Um ano de boas histórias
 
Publicada na Tribuna do Norte, em 1º de janeiro de 2006.

Neste fim de ano, fiz o que faço todos os finais de ano: arrumei armários e gavetas, quartos de despejos e o disco rígido do computador. É sempre uma boa idéia começar o ano novo livre da tralha desnecessária que acumulamos ao longo dos doze meses passados, dar uma boa espanada, tirar as teias de aranha e deixar o sol entrar. Iniciar o ano com muito espaço livre para as coisas novas que vão aparecer na nossa vida ao longo de 2006.

Vejo com muita esperança este ano que se inicia. Apesar de muita gente estar desiludida com a política eu, que já vivi um pouco mais e vi esse filme algumas vezes, não me decepciono com políticos porque nunca esperei deles muita coisa mesmo. Acredito mais em mim e em você, meu caro leitor, e na capacidade que temos de realizar coisas, de tocar a nossa vida e de ir atrás das oportunidades que estão dando sopa por aí, à espera de alguém esperto e atento como você, ou como eu.

Penso que o segredo de continuar vivendo, sem se deixar abater pelas trapaças da sorte, é perder a capacidade de se iludir, mas conservando sempre a capacidade de se entusiasmar. Acreditar nas pessoas, e não fazer generalizações perigosas. Concentrar energia no que é bom, no que é positivo, no que leva para o alto, na parte boa das coisas.

Mas para que as coisas boas aconteçam, precisamos colaborar, fazer a nossa parte. Por que, quando nos encontramos, precisamos contar em detalhes minuciosos o assalto, o acidente ou a doença que aconteceu conosco ou com alguém próximo de nós? Minha gente, como resolução de Ano Novo vamos nos comprometer a só contar história boa. Vamos assumir a tarefa de parar de falar em desgraça. Vamos deixar de fazer como o noticiário da TV, que só mostra o que não presta, o roubo, a falcatrua, o crime, a futilidade.

Vamos transformar em nosso principal assunto as Coisas Boas, o Sucesso, a Alegria, as Realizações. Vamos deixar o crime e a corrupção de lado e vamos passar este ano de 2006 falando apenas em Arte, Literatura, Poesia, Beleza.

É isso que desejo a você, meu caro leitor, nesse primeiro dia de janeiro: um ano inteirinho de boas e felizes histórias.

Escrito por Clotilde Tavares às 10h54
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31/12/2005

As coisas supérfluas

Publicada na Tribuna do Norte em 25 de dezembro de 2005.

O Natal se aproxima e com ele todo o cortejo de rituais e tradições desta festa que já foi pagã, hoje é cristã e, do jeito que as coisas andam, talvez se torne pagã novamente, trocando as igrejas pelos shopping-centers e as divindades cristãs pelos ídolos da TV com os quais todo mundo quer se parecer. As tais catedrais do consumo estão repletas de pessoas em busca das “lembrancinhas” que, mesmo simples e baratinhas, tornam todo mundo tão feliz. Prudentemente, fiz todas as minhas compras até domingo passado e agora me divirto apenas em fazer os pacotes e pensar na mensagem que vou escrever para cada um.

Gosto de me lembrar dos presentes que ganhei ao longo dessas décadas de vida, e foram todo tipo de presente. Nunca consegui me esquecer de um pianinho de dez teclas, do dó ao mi, que ganhei de Papai quando tinha dez anos. Ficava horas, sentada no chão, tirando melodias no pequeno teclado e sentindo falta de alguns sons que somente depois descobri em um piano maior, escondidos nas teclas pretas que o meu pianinho não tinha.

Ganhei brinquedos e livros quando era criança, roupas e livros em mocinha, jóias, bijuterias, perfumes e livros depois de adulta. Até hoje, continuo ganhando livros, sempre acompanhados dos presentes que gosto mais: bijuterias, perfumes, écharpes, caixinhas de madeira e porcelana, leques, cadernetas...

E fora os livros, é claro, gosto muito mesmo dessas pequenas bobagens que muitas vezes não servem para nada e das quais já temos um bom número. Supérfluas, desnecessárias, por isso mesmo fazem a nossa festa e a nossa alegria, porque presente tem que ser algo extra, algo diferente, e presentear com aquilo que normalmente a gente tem que comprar no dia-a-dia é a coisa mais sem graça do mundo.

É como aquele garotinho de uns quatro anos que vi na loja e que, enquanto os pais escolhiam para ele uma roupinha, gritava em alto e bom som: “Mas eu não quero essa roupa normal! Eu quero um traje completo do Homem-Aranha!” Esse meninozinho, para mim, é o símbolo do Natal, neste ano de 2005. Sair do lugar comum, da roupinha linda e de griffe mas ao mesmo tempo chata e convencional, e ousar no traje diferente, cheio de atitude, na “roupa do Homem-Aranha”. Pensar diferente, sair da mesmice, fazer algo inusitado e, principalmente, desfrutar do supérfluo.

Como disse o imortal William Shakespeare, no “Rei Lear”, Ato II Cena 4: “Até os homens mais pobres precisam de coisas supérfluas”. Feliz Natal.


Escrito por Clotilde Tavares às 06h00
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18/12/2005

A cidade revisitada

Publicada em 14/12/2005, n'A União - João Pessoa/PB

Depois do almoço, pego o ônibus e vou ao centro da cidade. Saltando na Lagoa, o primeiro impacto é auditivo: a fala paraibana do povo que se apinha por ali, com sua sintaxe peculiar, o falar alto, engulindo a parte final das palavras, rude e melodioso ao mesmo tempo, delícia para os meus ouvidos, a fala paraibana do meu povo paraibano. Mais na frente, o “Trio do Catoquinho” executa os primeiros compassos de um forró, com zabumba, sanfona e triângulo, em busca de trocados no ponto do ônibus. Rápida e fugaz impressão, abafada pelo estrondo das caixas de som colocadas a dois metros uma da outra, vendendo CDs piratas de bandas de axé, forró falsificado e gospel. Ouço, embalada por ensurdecedores decibéis, que Jesus me ama, e que Cristo, só Cristo, pode me salvar.

Mas quem me salva é o perfume saboroso das frutas expostas em tabuleiros, num ofertório de sabores, cor e beleza. Atravesso a rua e tomo pela Santo Elias, em direção ao shopping, quando vejo a casa em que morou Anayde Beiriz mais uma vez ameaçada pela descaracterização da sua vizinhança: a casa ao lado está de fachada nova, tendo as duas janelas antigas substituídas por reluzente porta de alumínio. Volto, subo a Barão do Abiaí, e desço pela Visconde de Pelotas, tentando reconstituir os trajetos da minha juventude, quando me hospedava com meus tios em Expedicionários e vinha todas as tardes ao comércio chique dessas ruas, num tempo em que não havia shopping-centers. Dobro à direita e evoco a majestade perdida do Parahyba Palace Hotel. No café do térreo sobrevivem alguns antigos freqüentadores, com seus cabelos brancos, a exercitar a maledicência suave da província, hábito tão nosso, pecado sempre perdoado.

Imersa na babel em que se tornou aquela região da cidade, subo pela Duque de Caxias. É um barulho ensurdecedor, muita fumaça, gente variada entregue aos seus pequenos expedientes de sobrevivência, vendedores de todo tipo de objeto barato, em bancas ou ambulantes, e onde predomina o negócio mais recente e lucrativo: a pirataria.

Ao desembocar na Praça, busco refúgio na antiga Faculdade de Direito, que só consigo ver como o Seminário fundado em 1745 pelo Padre Malagrida, ilha de paz e silêncio no burburinho da cidade, com suas arcadas repousantes, o jardim interno, as volutas das escadas, a torre do relógio, o porteiro sonolento, tudo convidando ao sossego, à paz, à calma, à reflexão. Na quietude da tarde morna, encontro assento em um banco e repouso olhos, ouvidos e coração, dessa aventura emocional todo dia renovada que é a redescoberta da cidade.


Escrito por Clotilde Tavares às 10h11
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13/12/2005

A poesia de Sérgio de Castro Pinto

por Clotilde Tavares - Publicada na Tribuna do Norte em 11 de dezembro de 2005.

Muito mais do que há dez anos, hoje em dia a poesia está no ar. São muitos e variados os eventos poéticos que acontecem na cidade, como saraus, grupos de leitura, lançamentos de livros e recitativos informais. E isso é bom, porque a com a alma alimentada e satisfeita de poesia o ser humano não tem tempo para pensar em ódio, violência, inveja, malvadeza, e outras mazelas às quais a nossa pobre Humanidade está sujeita.

Não faço crítica literária. Dou opiniões, tipo “gosto” ou “não gosto”, e tento justificar essa opinião, coisa que às vezes não consigo. Fico, então, no “gosto, e pronto.” Então, falando de poesia tenho que falar de poetas, de poetas que eu gosto, de poetas vivos, que estão produzindo, poetando, e acariciando minha alma com seus versos. Hoje, escolho um deles, para exibir, qual artigo de luxo, para os leitores desta coluna.

Trata-se do paraibano Sérgio de Castro Pinto, o poeta do “Zôo Imaginário” (São Paulo, Escrituras Editora, 2005). O escritor Aldo Lopes já havia me falado com entusiasmo da poesia de Sérgio, que eu não conhecia. Aí, vasculhei um pouco na Internet e encontrei alguns poemas do autor, que li com deleite. Ele próprio se define no “3 x 4”: “entro na fotografia/ como quem do mundo/ se homizia./ sem livrar o flagrante./ (instantâneo eu sei que sou/ neste mundo lambe-lambe).//” Como afirmei no início, não estou fazendo crítica literária. Estou elogiando mesmo, esta poesia tão simples, tão direta, mas tão bem elaborada que nem parece, como aquelas maquilages que se coloca nas modelos para que se pense que elas estão sem maquilage.

Depois de ler os poemas do “Zôo Imaginário”, jamais podemos olhar para as andorinhas e não vê-las como “...fusa/ ou semicolcheia/ na pauta dos fios/ da eletricidade...” ou a girafa, que ele chama de “girassol com sardas”: “... –com o pescoço/ a se perder/ de vista -, vive nas nuvens/ e rumina a brisa...” Mas é nas cigarras que Sérgio de Castro Pinto alcança a sua melhor performance: “as cigarras/ são guitarras trágicas.// plugam-se/se/se/se / nas árvores/ em dós sustenidos.// kipling recitam a plenos pulmões.// gargarejam/ vidros/ moídos. //o cristal dos verões.//”

O livro traz uma introdução crítica de José Nêumanne Pinto e é ilustrado por Flávio Tavares. A edição é primorosa, mas o bom mesmo são os poemas, e lhe dou, de presente, mais esse, para fechar esse firo poético: “a coruja:// são todo ouvidos/ os teus olhos/ de vigília.// olhos acesos/ luzeiros/ de sabedoria.// olhos atentos/ à geografia/ do dentro,// és uma concha.// um encorujado/ caramujo.// monja em voto de silêncio.//


Escrito por Clotilde Tavares às 20h43
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